segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Nem tudo é sofrimento


Pra não dizer que eu só conto as coisas ruins de estar aqui em Angola, vamos a parte boa. Tive dois ótimos finais de semana esse mês. No primeiro, fui com os amigos da empresa a praia de Sangano, numa província à 150 km de Luanda.
Difícil é sair de Luanda, por conta do trânsito, mas, quando se pega a estrada, o clima muda totalmente. Essa estrada é rodeada por uma vegetação bem africana, com vários pés de Imbondeiros, árvore símbolo da cidade. Toda vez que vejo um imbondeiro eu lembro do Rafiki, macaco do filme O Rei Leão da Disney que morava numa dessas árvores…

Falta de infância à parte, antes de chegar a Sangano você passa pelo Miradouro da Lua, que é uma região alta onde a natureza fez uns desenhos interessantes com a erosão das montanhas. Parece-se um pouco com a superfície lunar, daí o nome.
Saímos da estrada e pegamos uma pista de chão batido, por umas montanhas que dão acesso a praia. O carro fica numa inclinação quase vertical para se descer até Sangano. A paisagem é perfeita, com montanhas rodeando a margem do mar. Frutos do mar à vontade na barraca do Pirata. Vale a pena conferir.

No final de semana seguinte, conheci Cabo Ledo, que fica alguns km à frente de Sangano. É uma praia maior, bem maior e com paisagem igualmente estonteante, passamos por uma pequena vila de pescadores, com suas casas de palha onde secam peixe para vender nas feiras da capital.
A água é de uma temperatura Glacial: só europeus se aventuram a cair na água. Eu, acostumado as águas mornas da Bahia, só me dispus a molhar os pés e a achar graça da quantidade de roupa que se usa por aqui para ir a praia. O sol morno e uma brisa gelada fazem o clima ser muito diferente do que estamos acostumados no Brasil e justifica como algumas pessoas por aqui, as vezes, tomam sol de calça jeans.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

E eu que não gostava de provar roupas...

Outra de minhas façanhas nessa vinda para Luanda foi ter viajado apenas com uma mochila. Minha ideia era trazer o mínimo de roupa e comprar o resto aqui, uma vez que sendo um pais da África, certamente as coisas seriam mais baratas… não são. Roupa aqui é um absurdo! As pessoas viajam para os países vizinhos ou para Portugal para comprar roupa e revender aqui. Uma calça de camelô, vendida na rua, fica por 22 doletas.
Hoje fui ao um bairro popular, o famoso bairro do São Paulo para comprar umas calças jeans para trabalhar. Fui numa lojinha simples, de uma moça com sotaque libanês. Escolhi as calças e pedi para experimentar. Ela me apontou um quartinho com uma cortina de plástico, daquelas de banheiro, nos fundos da loja. Entro no quartinho que devia medir não mais que 2x2 metros e me deparo com uma janela ENORME, sem vidros, que dava para um prédio colado na loja e uma rua. Troquei a roupa vendo as pessoas passarem bem próximas, algumas olhando para mim…
E pra completar o constrangimento, de repente entra um cara, para partilhar o quartinho para experimentar uma camisola (camiseta. Aqui eles chamam assim, e eu sempre acho engraça). O cara entrou, meio me empurrando um pouco, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Aqui deve ser! Mas no Brasil, seu espaço no provador é sagrado, é algo solene, um momento seu…
E a bendita calça ficou apertada, tive que pedir a um amigo para buscar outro numero. E o cara lá, olhando a camisa dele, tentando me ignorar. Eu de calças na mão, constrangido, como se estivesse de cuecas num elevador com um estranho. E pra completar, de repente a cortina abre e entra outro cara! Quem disse que o inferno não pode ser pior? Os dois experimentando roupas e tal.. e eu ali… meio de lado… segurando “as coisas”, renegando o dia que resolvi vir de mochila para outro continente.
E chegou as calças novas, vesti rapidinho, olhei no espelho para ver se tinha ficado legal.. e nesse outro momento, importante, que você quer sentir se seu investimento valerá a pena, se vai ficar bonito com a peça que vai adquirir, um dos caras me dá um cutucão para eu sair da frente do espelho!
Me indignei, vesti minhas velhas calças usadas e fui embora!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Restaurante Infernal

Esse mês consegui uma façanha memorável: confundi 3 notas de um dólar com notas de cem doláres. Resultado: fiquei com menos de 5 doletas na carteira para passar o resto do mês. Consegui algum emprestado, outro pouquinho de adiantamento e por isso, tive que cortar despesas.
Como meu principal gasto por aqui tem sido na alimentação, tive que arrumar um lugar underground pra comer. Uma coisa sobre os restaurantes em Luanda: ou você come num top de linha ou num lugar muito ruim. Não tem meio termo, não é como no Brasil que no centro das grandes cidade você pode comer um PF que num lugar no mínimo respeitável. Não! Ou você come lagosta ou come choco grelhado num restaurante sem janelas. Tive que ficar com a segunda opção.
Onde tenho almoçado, seu almoço começa com uma recepção nada calorosa. Chega, senta-se numa das cadeiras com estofados sempre manchados de algum liquido que alguém derramou (ou derramou de alguém…) e espera-se alguns muitos minutos pra ser atendido. Percebi que dos três garçons apenas um atende ao meio dia. Semana passada esperei 15 minutos pra ser atendido, outro cliente foi pedir a um dos atendentes que estava parado pra o atendê-lo e ouviu que era hora de descanso. Isso ao meio dia. Tudo bem.
Enquanto esperava, uma TV que fica numa parede num dos cantos do restaurante começou a pegar fogo. Algumas pessoas correram, outras, como eu, ficaram olhando a fumaça com um olhar perdido…. Morrer queimado a essa altura é o menor dos meus problemas ultimamente.
E ali, esperando camalmente alguém me perguntar o que eu queria comer, vi a moça que serve os pratos sair da cozinha e notar algo boiando em algum dos pratos. Prontamente, pegou a mão, retirou o objeto não identificado do prato do cliente e foi servi-lo naturalmente. Morrer por uma diarreia provocada por cloriformes fecais era o menor dos problemas de quem pediu o prato.
Nesse lugar, um grupo de três homens, sempre de terno escuro, pedem todos os dias uma caixa de vinho. O vinho vem numa caixa de papelão, tipo de leite. Chama-se Orla Marítima. O garçon pega a caixa, abre a ponta como se faz nas caixas de leite e serve num copo qualquer… E eu que reclamava do vinho em garrafa de plástico que tem no Brasil.
E veio meu prato: uns pedaços de cabrito boiando em algum liquido com consistência de minguau. Sim: os caldos por aqui, muitas vezes, tem uma liga, tipo cola, que faz tudo parecer papa. E, abrilhantando o prato, um cabelo. Longo, de mulher, unindo os poucos pedaços de osso do cabrito. Bom, morrer de… (o que cabelo pode causar pra matar uma pessoa mesmo?) é o menor dos meus problemas ultimamente.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Sem Boléia


Rolou o show da Ivete Sangalo por aqui, promovido por uma das empresas do grupo em que trabalho. Por falar nisso, tive o privilégio de desenhar a escada do palco desse show. Agora posso contar para meus netos que a Ivete pisou em algo que projetei!!!
No dia do show, fui levado até o estádio cidadela por motorista e tudo. Tirei mó onda entrando no estádio, até o campo de choffer…
Durante o show, tinha umas barraquinhas vendendo cerveja de uma marca pouco conhecida. Tirei umas notas de Kuanzas e pedi algumas fichas pra comprar cerveja. Na verdade pedi 50 fichas, imaginando que cada cerveja custasse umas 10 ou 12 fichas. Descobri que cada cerveja era uma ficha, e eu poderia beber 50 cervejas e entrar em coma alcoólico (se a cerveja não fosse salgada e com gosto de parede).
Mas, as mordomias acabaram por ai. Depois de ver Ivete dançar a “tarrachinha”, que é uma espécie de arroucha onde o homem fica paradão e a mulher faz… roça… é.. tá, vocês entenderam, eram quase uma da manhã, hora de ir para casa.
Me distrai conversando com uns brazucas de minas gerais que conheci durante o show e demorei de buscar uma “boleia” (carona) pra voltar para pensão. Quando dei conta, todos os carros estavam lotados, ninguém podia voltar pra me buscar e eu estava sozinho.
Ok, por que não pegar um táxi ou mesmo um onibus até em casa? Pelo simples fato de não existirem essas coisas por aqui. As famosas kandongas possuem um itinerário indecifrável para um estrangeiros. Alias, eu sinto que elas apenas passam… cheias… lotadas… e nunca param em lugar algum.
Olhei para um lado, olhei para o outro… e resolvi voltar a pé. Prestei atenção ao caminho que o motorista fez na ida, e confiei no meu instinto de direção e de sobrevivência. Isso a 1:30 da manhã, eu com cara de gringo num pais africano.
A principio seguir uma avenida principal, na direção do centro da cidade. Mas a avenida acabou, e começaram meus problemas. Me perdi! Comecei a me embrenhar em becos escuros, com gente passando assustada, fechando as janelas ao me ver passar. Nunca me senti tão branco como naquele dia! Nessa hora eu entendi as palavras de um amigo que já viveu aqui em Luanda, que costuma dizer que por aqui não existem tons de cinza. Na escala de cor de pele, ou você é preto ou é branco! Normalmente, entre os brancos eu sou preto, mas naquela noite, perdido, pálido de susto, eu era quase albino.
Vi um carro parado e resolvi pedir informações ao motorista. Quando toquei na janela e me abaixei pra perguntar, o cara cantou o pneu e foi embora! Tava mais assustado do que eu. E fui andando, as vezes reconhecendo uns pontos, as vezes totalmente perdido, as vezes conseguindo alguma informação.
Cheguei na pensão são e salvo, quase às 2:50 da manhã. A essa altura, Ivete Sangalo, minha conterrânea, já dormia no melhor hotel de Luanda, após atravessar a cidade num Hammer branco com batedores da policia a abrir caminho no transito, em seu quarto com paredes cobertas com cartolina preta, a seu pedido.

Na falta de tu, vai tu mesmo!


Ói nós aqui través!
Perdão a todos pelos dias sem blog. O trabalho por aqui é intenso e não houve tempo nem de escrever nem de acontecer coisas interessantes. Bom, tentarei com o tempo contar as histórias mais legais.
Nesse embalo de muito trabalho, passei uma noite sem comida e sem água! Pois é… acontece que ainda estou morando numa pensão, que por sinal não tem freegobar nem água filtrada. A cozinha fecha as 23 horas, a partir daí você é largado a mercê da sorte. Sem geladeira (ou geleira, como dizem por aqui) sou obrigado a estocar comidas secas: biscoitos, frutas secas, etc. Sem tempo, ontem a dispensa esvaziou e eu fiquei de levar algo pra casa.
Mas trabalhei até as 0:00 e fui zumbi, direto para o quarto dormir. Acordei às duas da manhã, completamente seco, até engolir saliva dava trabalho! Fui beber água… não tinha água. E me bateu ao mesmo tempo uma fome quando lembrei que tinha ido dormir sem jantar.
Desesperado, fui até a mesinha onde guardo comida na esperança de encontrar algo molhado pra comer. De molhado tinha uma cerveja quente, pra comer tinha 5 bolachas creme cracker que já faziam alguns aniversários ali. Bom: na falta de tu, vai tu mesmo.
Pra não morrer ressecado, resolvi encarar a garrafa de calsberg quente. Pra meu desespero ainda maior, não tinha nenhum abridor de garrafa. Das muitas técnicas de abrir uma garrafa de cerveja sem abridor, resolvi tentar não fazer muito barulho. Já tentaram abrir uma garrafa com tesoura? Pois consegue-se.
E me vi, sentado na cama, bebendo cerveja com bolacha, em cima de um estômago vazio e louco por um copo com água.

terça-feira, 10 de junho de 2008

O Francês

Dia mais tranquilo no trabalho, fomos pra casa cedo. Plena segunda feira, sem os braços da linda e amada esposa para me acolher nem as brincadeiras de minhas filhinhas para me alegrar, o jeito era ir para pensão e dormir. Eu e meu parceiro Tony estamos hospedado na mesma pensão e, conhecemos um jornalista francês que também está lá.
Então, ao invés de ficar no quarto assistindo vídeos clips indianos, canal árabe ou a TV estatal local (vou fazer um post apenas sobre a TV em Angola, aguardem), fomos ao Veneza tomar umas brejas e falar sobre a vida. O Veneza é um restaurante requintando que fica próximo a nossa pensão. Ares de pub, com pessoas fumando em quase todas as mesas, muita gente, decoração interessante. Dois grandes aquários guarnecem a porta de entrada. A comida é boa e cara, como tudo por aqui. Especialmente cara no Veneza, eu diria, mas, como a intenção era ficar na cerveja, nos demos ao luxo.
Começou quando a atendente não gostou da cara do Françuar. Ela tinha uma má vontade de atendê-lo, um ar de desgosto ao ouvir sua voz, uma resistência de chegar perto, que o coitado quase desiste do pedido. Já eu e Tony ganhamos nossa cerveja, entretanto, penamos para comer as batatas. Nunca tinha visto batatas demorarem 30 minutos para ficar prontas, mas vieram… menos a bebida do Françuar, que continuava sorrindo e falando de suas viagens pela África.
E falamos da língua, de música, de cinema, politica, jornalismo e do Brasil. Esse último assunto rendeu muitas lembranças e saudades.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O Povo Bambara


Aqui perto tem um mercadinho onde compro comida para o café da noite. Saio da empresa, ando algumas quadras e chego nesse lugar. A porta sempre trancada guardecida por uma forte grade de ferro indica que o mercadinho sobreviveu aos anos de guerra civil.
E toda vez que entro nesse lugar, os donos, que falam português começam a falar em dialeto. E olham pra mim, falam de mim, só que em dialeto. Não posso fazer muito, alem de devolver os olhares ou demonstrar que gostaria de entender. Na quarta vez que isso aconteceu resolvi quebrar o silêncio e perguntar que língua era aquela. Me disseram que era uma língua chamada Bambará, do povo Bamba. Logo pedi para me ensinarem como se fala Obrigado em bambara: Iniki (não sei se é assim que se escreve, mas tá valendo!). Logo eles estavam sorrindo e me ensinando outras palavras. Só espero que não tenham me dito que Ishoa (bom dia), seja na verdade filho da #$£@!